Na esteira dos protestos de junho, a Mídia Ninja emergiu como
uma novidade instigante, um novo modelo de jornalismo. A concepção é
simples e barata: por meio de celulares, os repórteres ninjas transmitem
pela internet as imagens dos acontecimentos. Não há texto nem edição,
apenas os vídeos em estado bruto em transmissões que facilmente duram
seis horas. Na página do grupo no Facebook, há ainda fotos dos atos.
O sucesso repentino tornou-se, porém, uma fonte de dor de cabeça. Tudo começou com a presença de dois de seus expoentes no
Roda Viva,
programa de entrevistas da TV Cultura, em 5 de agosto. O jornalista
paulistano Bruno Torturra, até então, era a única face do Mídia Ninja,
acrônimo de “Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação”. A novidade
foi a presença de Pablo Capilé, criador do coletivo Fora do Eixo, guru
de uma nova forma de ativismo. Ficou clara a ligação umbilical dos dois
(Ninja e Fora do Eixo), antes praticamente desconhecida.
Por que essa relação virou alvo de tantas críticas? Em pequenos
círculos, não é de hoje, corriam acusações contra o movimento. A
exposição de Capilé amplificou as acusações nas redes sociais, espaço de
excelência do grupo. Nos últimos dias,
CartaCapital ouviu oito
ex-integrantes e debruçou-se sobre a estrutura organizacional do
coletivo. Metade deixou-se identificar. Os demais preferiram não ter
seus nomes citados, por medo de represálias, mas confirmam as
informações dos ex-colegas. Emergem da apuração um aglomerado
controverso, acusações de estelionato, dominação psicológica e ameaças.
Nas casas, os integrantes dividem quartos, dinheiro, comida e roupas.
E estão submetidos ao “processo” do Fora do Eixo. “Primeiro te isolam.
Proíbem de sair na rua ´sem motivo´, impedem de encontrar amigos ou
estabelecer qualquer contato com pessoas de fora. Depois, vem a
apropriação de toda a sua produção. O cara sai sem grana, sem portfólio e
distante dos amigos antigos. Sem apoio psicológico ou da família vai
demorar a se restabelecer social e profissionalmente”, diz o fotógrafo
Rafael Rolim, 29 anos, 3 deles na organização, em contato direto com
Capilé. Rolim e os demais integrantes ouvidos pela revista endossam o
depoimento da ex-integrante Laís Bellini, postado nas redes sociais.
A cineasta Beatriz Seigner foi a primeira a criticar o coletivo. Em texto postado no Facebook dois dias após o
Roda Viva,
diz, entre outros pontos, que o Fora do Eixo rompeu acordos e não lhe
pagou por exibições de seu filme. Escreveu ainda sobre o volume de
trabalho dos integrantes, que não teriam direito à vida pessoal ou
diversão. Se disse ainda impressionada com a devoção à figura de Capilé.
E comentou a repercussão: “Chegaram centenas de mensagens de coletivos e
artistas do Brasil todo agradecendo o desmonte da rede. Estou
aliviada."
No dia seguinte foi a vez de Laís Bellini. Segunda ex-integrante a se
manifestar, seu longo relato é considerado por outros ex-membros o mais
completo e fiel retrato do dia-a-dia do coletivo. Laís descreve uma
estrutura radicalmente rígida e verticalizada, baseada em forte
dominação psicológica. Para exemplificar, revela que foi afastada de um
amigo antigo que vivia sob o mesmo teto – “Disseram: ´Laís, o Gabriel
era seu amigo lá em Bauru. Aqui vocês não têm que ficar de conversa.
Aqui dentro vocês não são amigos”; Laís revelou ainda o
“choque-pesadelo”, prática que consiste em por uma pessoa na sala e
“quebrá-la” moralmente, aos berros; a moça narrou ainda que a cúpula
controla horários e saídas à rua e que o trabalho é extenuante e sem
folga nem aos domingos. São vigiados até bate-papos no Facebook ou
Gtalk.
Laís está em meio a uma longa viagem pela América Latina,
sem data pra voltar. A distância, diz, lhe deu coragem para falar.
“Quando postei, tirei toneladas do ombro e comecei a chorar. Tomei
coragem para dizer o que muitos têm medo mas que todos sabem que é
verdade".
Um dos pontos levantados pelos entrevistados é o uso dos integrantes
como uma espécie de isca sexual, o chamado Catar e Cooptar. “Há reuniões
na cúpula para definir quem vai dar em cima de você e te fisgar pra
dentro da rede”, afirma Laís. O designer Alejandro Vargas, que morou por
3 anos na Casa Fortaleza, dá mais detalhes: “Numa viagem rolou um papo
que 'deveria ficar ali', sobre 'fazer a entrega para a rede'. Diziam:
'tem o cara ou menina mais feios, mas que trampam muito' e tem aqueles
com 'mais chances de ter relações'. Tem que fazer a entrega para
alimentar o estímulo de quem é menos provido de beleza, inclusive de
fora da rede, para trazer para dentro”.
Rolim acrescenta: "'Catar e Cooptar' é o termo usado pelo Pablo, com
todas as letras e constantemente. Eu mesmo fui proibido por ele de me
aproximar de uma pessoa com quem tinha afinidade porque, 'para o
processo', eu deveria estar solteiro, eu era uma boa 'isca'. Relações
espontâneas entre dois integrantes, por amor, também não são bem vistas.
Casais assim são pressionados a desmanchar, e é proibido ter relações
com pessoas de fora da rede, a não ser por ordem superior. Capilé nega a
prática. “As relações afetivas não são determinadas por regras do
movimento, mas construídas por cada indivíduo, a partir dos desejos de
cada um.”
O Fora do Eixo nasceu em 2005, e seu nome faz menção ao fato de a
iniciativa ter começado em centros distantes de São Paulo e do Rio.
Capilé é de Cuiabá. Do Mato Grosso, o coletivo expandiu-se para
Uberlândia (MG) e Rio Branco (AC), e dali para outras cidades. A relação
com os artistas funciona assim: uma banda iniciante entra na
programação de eventos culturais do grupo e faz shows em algumas
cidades. Não paga passagem, hospedagem e alimentação (fica nas casas
Fora do Eixo). Em contrapartida, não recebe cachê. O dinheiro arrecadado
com suas apresentações financia o movimento.
Capilé e seus apoiadores calculam 2000 integrantes, mas o Fora do
Eixo se resume a sete casas (São Paulo, Belo Horizonte, Brasília,
Fortaleza, Porto Alegre, Belém e Porto Velho), onde vivem em média dez
ativistas, ou seja, cerca de 70 no total. Há ainda algumas casas de
coletivos parceiros, como em Bauru e São Carlos. Quando se soma os
agregados, na estimativa mais otimista, a organização tem hoje 200
participantes.
Oficialmente, o financiamento é baseado em shows e editais do governo
ou de empresas estatais e privadas. Existe, no entanto, uma terceira
fonte significativa: a apropriação de dinheiro e bens particulares de
colaboradores. "Solicitaram um cartão de crédito que eu tinha em
conjunto com meus pais para comprar passagens. Como a confiança era
total, fui induzido a compartilhar a senha. Em um mês e meio gastaram 21
mil reais no meu cartão. Compraram um Macbook Pro novo para o Capilé, o
que só soube quando a fatura chegou”, lamenta Rolim.
Vargas acrescenta: “É prática cotidiana a utilização dos cartões de
quem mora nas casas. E como não tínhamos salário, logo a dívida do
cartão entrou no SPC e na Serasa, e até hoje tenho o nome sujo”. Laís,
por sua vez, saiu com uma dívida de 5 mil reais. O FdE nega a prática de
apropriação, mas reconhece o uso de dinheiro e automóveis dos
integrantes. “A destinação de seus bens para o uso do processo é um ato
livre. Se você tem um carro e vem para uma casa, é natural que este
carro seja usado. Se você tem um cartão de credito e quer
disponibilizá-lo para ações da rede, a mesma coisa”. Na última
segunda-feira 12 o coletivo lançou um "portal de transparência", mas não
menciona o uso sistemático do dinheiro e bens dos integrantes.
O livro de cabeceira de Capilé é uma pista para entender como ele comanda o grupo.
48 Leis do Poder,
lançado em 2000 no Brasil pela editora Rocco, é direcionado a
empresários e traz dicas como “faça com que as pessoas venham até você:
use uma isca, se necessário” e “faça com que os outros trabalhem para
você, mas leve sempre o crédito”. Outra pista, esta fornecida por Laís, é
a proibição de se assistir nas casas o vídeo
Controle Mental – Como se Tornar um Líder de Culto.
Capilé criou um reino particular a partir de “simulacros” do mundo
real. A contabilidade virou “Banco FdE”. Eventos com debates formam uma
“Universidade FdE”. Viagens viram “colunas”. O lobby político é o
“Partido da Cultura”. E a comunicação tornou-se “Mídia Ninja”.
Aos 34 anos, Capilé dedica-se intensamente ao movimento. Dorme pouco,
alimenta-se mal e fuma muito. Viaja tanto que, não raro, cumpre agenda
em três cidades em um mesmo dia. Está sempre desconfiado e conectado, e
com baterias reservas. E é dono de uma retórica eloquente e messiânica.
Há um claro projeto político, e o coletivo não deixa de exercer sua
influência. O Fora do Eixo teve peso na indicação, entre outros, do
secretário municipal de cultura de São Paulo, Juca Ferreira, do
subsecretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul, Jéferson
Assumção, do secretário estadual de educação do Acre, Daniel Zen, e de
três dos secretários municipais de Porto Velho.
A organização não discrimina espectro ideológico. Sua ampliação em
Cuiabá se deu sob as asas do PSDB, quando ganhou verbas públicas na
gestão de Wilson Santos na prefeitura. Nas eleições do ano passado,
apoiaram o petista Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo e Mauro
Nazif, atual prefeito de Porto Velho, do PSB. O senador mais próximo do
grupo é Randolfe Rodrigues, do Psol. A respeito, o FdE disse não
acreditar em política de governo, mas “em políticas de estado.”
A nova aposta é a Rede de Marina Silva. O coletivo esteve no
lançamento da legenda em Brasília, e Torturra afirmou no Roda Viva ser
marinista. Caso o partido consiga registro no Tribunal Superior
Eleitoral, o plano de Capilé é lançar Torturra candidato a deputado
federal pela Rede em 2014. "Ele é o nosso homem com rejeição zero",
afirmou o cuiabano em mais de uma ocasião.
A relação do Fora do Eixo com parte da esquerda e dos movimentos
sociais tem sido atribulada, desde antes da criação da Mídia Ninja.
Alguns grupos fazem duras críticas aos ativistas por despolitizar
manifestações, ao trocar causas concretas por slogans genéricos. Entre
os grupos que tiveram embates com o Fora do Eixo estão Mães de Maio, o
Movimento Passe Livre, o Desentorpecendo a Razão, os moradores da Favela
do Moinho e o Cordão da Mentira.
Capilé costuma negar que o coletivo e a Mídia Ninja sejam a
mesma coisa, mas quem esteve nas casas reafirma os laços entre os dois.
“O projeto nasce e vive no Fora do Eixo, segue a mesma estrutura, tem as
mesmas hierarquias e cargos. Mas tem outro nome, para evitar a rejeição
que o FdE provoca. Mas quem dá o OK são as mesmas pessoas que dão OK em
tudo no Fora do Eixo, e quem vai para rua cobrir são moradores das
casas ou colaboradores do FdE”, esclarece Gabriel Zambon, coordenador do
Ninja em Belo Horizonte até maio último.
Mesmo antes da recente leva de críticas, estava em curso um esforço
para desvincular os dois. Capilé segue, contudo, confiante no poder de
sedução de sua retórica e do mundo que criou. E vive a repetir: “para
cada um que sai do Fora do Eixo tem dez querendo entrar".
Fonte/Autor:
Carta Capital