Cléa Rubinstein, aos 71 anos, usa a tecnologia com a mesma
facilidade que os netos Gabriel (4) e Dora (10), seja usando o Whatsapp
para falar com uma filha que mora em Londres ou com a outra, mãe das
crianças, que reside na mesma rua que ela. Nascida em Olaria, na Zona
Norte do Rio de Janeiro, desde os oito anos ela mora em Copacabana. Já
são sete décadas e várias mudanças de estilo de vida, refletidas na
evolução do orçamento familiar.
Filha de imigrantes judeus que aqui chegaram vindos da Romênia na
década de 1930, D. Cléa recorda o ambiente familiar da infância:
“Falávamos português e iídiche em casa. Preparávamos pratos típicos
judaicos em celebrações e, de vez em quando, era preciso fazer alguma
adaptação. O
gefilte fish, por exemplo, que é um bolinho de
peixe típico judaico, é feito com carpa, um peixe de rio, mas nossa
família teve que se adequar aos peixes nacionais”.
De lá pra cá, a receita já mudou de novo e hoje os restaurantes
judaicos costumam usar processador elétrico para moer a tilápia, um
peixe fluvial africano que foi introduzido no Brasil para a pesca
artesanal nos anos 80 e hoje representa cerca de metade da produção da
piscicultura no país.
Assim como os hábitos culinários e alimentares mudaram, também os
orçamentos familiares se adaptaram aos novos tempos. As despesas com
alimentação, que ocupavam mais de um terço (33,9%) das contas das casas
nos anos 70, tiveram sua influência reduzida a menos de um quinto
(19,8%) em 2008-2009.
Do caderno de dedicatórias às redes sociais
Cléa também se lembra das conversas com as colegas de escola numa
época sem celulares, Orkut ou Facebook: “Quase todas as meninas tinham
cadernos de mensagens, em que os colegas escreviam dedicatórias no fim
de cada ano. Eram mensagens de amizade e bem-querer, não se revelava
nenhum grande segredo. Era tudo bem público e respeitoso. Aquilo servia
como uma espécie de rede social da época, considerando-se as devidas
proporções.
As conversas dos jovens também já eram longas na época do telefone
fixo: “Falávamos muito ao telefone. Era só um aparelho na sala de estar,
sem extensões para outros cômodos da casa. Às vezes, nossos pais
reclamavam e tínhamos que desligar na hora”.
Essas e muitas outras informações são coletadas pelo IBGE desde o
Estudo Nacional da Despesa Familiar (Endef), feito em 1974-75. Depois,
foi realizada a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) em 1996,
2002-2003 e 2008-2009. A coleta da próxima edição da pesquisa começou
em 26 de junho e vai até 2018.
Leia mais na
revista Retratos 1
Matérias relacionadas:
IBGE lança a Pesquisa de Orçamentos Familiares, um retrato de como os brasileiros gastam o seu dinheiro
Vídeo mostra como é feita a coleta da POF
Um salto no peso das crianças
A POF também revelou um salto no número de crianças de 5 a 9 anos com
excesso de peso ao longo de 35 anos: em 2008-09, 34,8% dos meninos
estavam com o peso acima da faixa considerada saudável pela OMS. Em
1989, este índice era de 15%, contra 10,9% em 1974-75.O padrão era
semelhante nas meninas, que, de 8,6% na década de 70, foram para 11,9%
no final dos anos 80 e chegaram aos 32% em 2008-09.
Texto: Eduardo Peret
Imagem: Licia Rubinstein
Infográfico: Luiz Arbex